Saturday, May 7, 2011

Literatura de cordel: meio notícia, meio literatura « Dias de resenha

"Com o cordel o poeta junta as peças  / Pra fazer coisa séria e brincadeira / O cordel é nascido do repente / A viola é a base do improviso / O poeta aprimora o juízo (…)  / Pra dizer de amor e de saudade / De velhice, de terra e liberdade / Do sertão e das sete maravilhas"

Trecho de "Martelo Agalopado" - César Obeid (2009)

Histórias de pessoas, interpretações de fatos políticos, crítica social e uma dose de humor que não poupa ninguém. Apesar de todas essas características, não estamos falando sobre o jornalismo político ou do caderno de opinião. Pelo menos, não no tradicional do formato de jornais ou revistas: é sobre literatura de cordel, aquele livreto pendurado nas cordas cujo conteúdo é a poesia oral popular.

Existente no Brasil desde o final do século XIX, o cordel é uma espécie de folheto noticioso, que conta histórias por meio de rimas e métricas próprias. Ele segue a proximidade do jornalismo em sua forma mais profunda: é do povo e para o povo. O cordelista mostra sua versão dos acontecimentos mais marcantes do país e mundo, com uma única condição, de que o fato seja relevante para a comunidade, cidade ou estado que reside. Daí, nada escapa.

Por meio da linguagem regional, o cordel mostra a sua versão das eleições, corrupções, escândalos financeiros… transformando tudo isso em histórias literárias, onde presidentes são cavaleiros maravilhosos, a corrupção é um dragão, os maus governantes são encarnações do diabo e o povo luta em batalhas imaginárias para superar as diferenças sociais. Ao lado desse realismo fantástico, vem a opinião do cordelista, reflexo da opinião do próprio povo. O resultado dessa mistura é a leitura de muitas histórias divertidas e míticas, mas com uma forte crítica social em seu pano de fundo.

Para alguns, o cordel é a "cara do nordeste". Para outros, a "cara do Brasil". Hoje em dia, com a globalização, podemos afirmar que é os dois. O cordelista utiliza os fatos que vê in loco ou nos noticiários para dar a sua própria cobertura. Até a internet ele usa, para divulgar os seus cordéis. Já leu seu jornal popular hoje?

"O cordel é também literatura
Que nasceu no nordeste brasileiro
Bem rimada e falada o dia inteiro
O retrato perfeito da cultura
Sua capa é em xilogravura
Bem talhada num taco de madeira
O folheto dá  a forma verdadeira
Às histórias que sempre são impressas
Com o cordel o poeta junta as peças
Pra fazer coisa séria e brincadeira
O cordel é nascido do repente
A viola é a base do improviso
O poeta aprimora o juízo
Pra fazer cada rima diferente
Toda dupla é sempre competente
Com pelejas, martelos e sextilhas
Com oitavas, décimas e setilhas
Pra dizer de amor e de saudade
De velhice, de terra e liberdade
Do sertão e das sete maravilhas."  Trecho de "Martelo Agalopado"
César Obeid (2009)

Para saber mais:
Academia Brasileira de Cordel
Casa de Rui Barbosa - 
Biografias, história, indicações e o extenso acervo online
Editora Luzeiro - especializada na venda de cordéis, com sede em São Paulo

** Texto publicado originalmente no Portal da Revista Esquinas – Faculdade Cásper Líbero.

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