Thursday, May 12, 2011

[Capítulo 3] Contra a parede | Contos de um viajante

Ela pagou o táxi e então seguiu na direção do Gran Duquesa. Usava um vestido preto colado ao corpo, com um decote generoso. Estava de salto, o que a deixava ainda mais alta do que já era. Seu corpo era bem definido, era uma falsa magra, com seios generosos e coxas grossas e firmes. Seu rosto era limpo e simétrico, sem marcas ou imperfeições. Seus longos cabelos negros eram tão lisos quanto a seda do seu vestido. Não aparentava ter mais que 22 anos, embora niguém soubesse a sua verdadeira idade. Uma mulher tão bela quanto perigosa.

Era uma mulher muito atraente e os transeuntes concordavam com isso, murmurando coisas sujas enquanto ela, rebolando, passava por eles. Parou no balcão e fuzilou o recepcionista com os olhos. Gostava de parecer impaciente e facilmente irritável, embora isso não fosse exatamente verdade. Pedro, o recepcionista, prontamente a reconheceu e fez com que o recado do senhor Kuczar, de que ela deveria subir imediatamente sem que ninguém a aborecesse, fosse prontamente executado.

Ezéquiel estava inquieto. Na mão esquerda segurava um copo cheio de um whisky caro, com bastante gelo para retardar efeitos desagradáveis. De tempos em tempos olhava pela janela, não que ele pudesse realmente ver quem entrava ou saia do prédio estando no 65º andar. Os 30 minutos que se passaram entre a sua chegada e o toque histérico do interfone pareceram horas. Era o recepcionista avisando que sua convidada já estava no elevador indo ao seu encontro. Ezéquiel ofegou. Bebeu todo o whisky do copo em um só gole, limpou a boca na manga do sobretudo e deu uma boa respirada. Ela havia chegado.

Ezéquiel a recebeu com uma expressão sóbria no rosto. Se perguntava o porquê daquela visita. – O plano está correndo como o planejado – ele pensou. Por que então ela estava ali, parada diante dele?

- Já faz um tempo que não te vejo – Disse Ezéquiel tentando disfarçar o quanto aquilo o desagradava. – Perguntaria como você está e toda aquela conversa fiada de sempre, mas não vejo motivos para não ser objetivo. Essa sua visita me surpreende, e muito, sendo assim desejo saber o motivo dela o quanto antes. – Fez uma pequena pausa e então acrescentou, curvando um pouco o corpo e a olhando nos olhos. – Imediatamente, se possível.

A mulher sorriu. Fazia tempo que ninguém a tratava com tanta insolência, mas isso não a enfureceu, pelo contrário. De certo modo gostava da objetividade de Ezéquiel, mas esta noite ela precisava dar um recado, bem ao seu estilo.

Seu nome era Marisa, se era seu nome verdadeiro, ou qual o seu sobrenome, ninguém sabia responder. Na verdade muito pouco se sabia sobre ela, apenas que era extremamente influente e que estava envolvida em praticamente tudo que fosse de alguma forma ilícito. Alguns chegavam a dizer que ela era uma poderosa praticante de ocultismo, e que coisas bizarras aconteciam com quem a desafiava. Todos acreditavam que ela tinha um pacto com o demônio.

- Não seja tolo de me fazer exigências. – Ela disse pra mostrar quem estava no controle. Achava muita graça nisso. – Lembre-se que é a mim que você serve, e não o contrário. Você não iria querer ofender uma dama, iria? Meu caro Ezéquiel. – E dizendo isso ela lançou pra ele um olhar tão ameaçador quanto malicioso. Ezéquiel perdeu o equilíbrio, tendo que se apoiar na porta para não cair.

- De forma alguma, não quis ofendê-la, sinto muito por ter passado tal impressão – Desculpou-se Ezéquiel, ainda tentando se recompor. Sua voz fraquejou e as palavras quase não sairam. Prontamente a convidou para entrar. – Whisky? Champanhe? Vinho?

Marisa aceitou uma dose de whisky, então sentaram no confortável sofá ao lado do mini-bar e beberam juntos. Ezéquiel ainda estava visivelmente envergonhado por ter passado por algo tão embaraçoso. Marisa bebericou o whisky e voltou a falar, achando muito tudo aquilo muito divertido.

- Ezéquiel já nos conhecemos a… – Então pôs-se a calcular a quanto tempo se conheciam.

- Seis mêses. – Ezéquiel a interrompeu.

- Isso, seis mêses. – Ela continuou. – E durante esse tempo acredito que nunca deixei de cumprir com a minha palavra, estou certa disso?

- Sim, você está certa. – Respondeu prontamente. – Mas ainda não compreendo o porquê dessa visita, ou o porquê dessa conversa agora. Por acaso deixei de cumprir com a minha palavra?

Marisa se levantou. Foi até a janela da ampla sala de estar em que se encontravam, bebericou novamente o whisky e com um movimento suave atirou o copo pela janela.

Ezéquiel pulou do sofá e correu para a janela em que Marisa estava. Deu uma boa olhada para baixo e pôde vislumbrar o copo se estilhaçar na calçada. – Você enlouqueceu!? Aquele copo podia muito bem ter matado alguém lá embaixo! O que deu em você!? O que… – Ezéquiel sentiu algo prender a sua respiração. Sentia que uma mão colossal o enforcava. Levou as duas mãos ao pescoço para tentar se desvencilhar do aperto, mas não havia mão alguma o enforcando.

Marisa ficou observando enquanto Ezéquiel se esforçava para respirar, sem muito êxito. Aos poucos seu rosto adquiriu um tom azulado. Estava prestes a desmaiar quando sentiu que aquela mão imaginária não mais o enforcava. Jogou-se ao chão e ficou ofegando e tossindo por um instante.

- Perceba, Ezéquiel, o quão fraca e insignificante a sua vida pode ser. O quão fácil pra mim seria acabar com ela. Assim como aquele copo que acabei de jogar pela janela. – Abaixou-se e o encarou, sua expressão agora mais calma e a voz mais suave. – Mas mesmo aquele copo poderia ter se tornado uma arma mortal se eu o tivesse atirado no exato momento em que alguém estivesse passando. E o copo não teria se partido em vão. Percebe agora o porquê de trabalharmos com um cronograma tão preciso? Não gostamos de fazer sacrificios em vão.

Ela o colocou de pé e com as duas mãos apertou-lhe os ombros e o encarou. – Mas que belo anjo da morte me enviaram. – Ezéquiel pensou.

- Eu vim aqui hoje para lhe dar uma escolha. – Disse Marisa, ainda com um tom de voz calmo. -  Ser uma arma mortal, e ter o meu reconhecimento, ou ser um fracasso, e ser simplesmente descartado no processo. A escolha é sua.

Então o largou e fez o seu caminho até a saída. Abriu a porta, e antes de sair virou-se para Ezéquiel e disse.

- Nosso tempo está acabando e você ainda se dá ao luxo de perder tempo com garotinhos. Quando você terminar o que me prometeu então eu te deixarei livre para seguir adiante com essa sua história de sequestrar crianças maltrapilhas do subúrbio. Mas se não conseguir Ezéquiel…  – Ela lançou-lhe novamente aquele olhar ameaçador. – Você desejaria ter sido atirado pela janela no lugar daquele copo.

♦ E a história segue, num ritmo inaceitavelmente lento, peço desculpas por isso. Qual será o plano dessa misteriosa mulher? O que Ezéquiel está fazendo pra ela? Quem é o garoto que foi 'sequestrado' por Ezéquiel, e qual a sua importância nisso tudo? Por que eu demoro tanto para escrever essa história? E afinal, qual o nome dessa história!? Putz, são tantas perguntas sem resposta… Farei o máximo para responder a estas e outras nos próximos capítulos. Fiquem ligados, e como sempre, expect some news here. (breve o blog já estará com o novo layout, assim que eu terminá-lo '-') Deixem comentários que meu ânimo aumenta e a história se desenrola mais rapidamente! (prometo rs)

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